A TELEVISÃO NA ERA DIGITAL

Blog sobre o livro de Newton Cannito

Do modelo de negócios ao modelo de criação

with one comment

Newton Cannito*

Há momentos em que o debate sobre audiovisual brasileiro parece uma Empresa Junior, aquele grupinho de meninos universitários que vestiam terninhos para brincar de ser pequenos empresários e acreditar completamente no “mundo dos negócios”. No entanto, quem entende mesmo de negócio sabe que a chave para o sucesso é ser inovador na invenção de conteúdos e ir além do modelo estabelecido. A criatividade é a verdadeira chave para o sucesso comercial na indústria audiovisual.

A saudável vontade que temos para conquistar o mercado tem levado o debate para falsas questões. Um exemplo: queremos profissionalizar a produção, mas achamos que ser profissional é o oposto de ser “artista”. Isso é um erro. Temos que ser artisticamente profissionalizados. Essa crença nos negócios e no profissionalismo fez com que as avaliações de editais dessem importância exagerada ao “tamanho” da empresa produtora, na questão da distribuição etc. Começamos a tratar o conteúdo audiovisual como se ele fosse uma “commodity” que deve ser “bem produzida” e “bem comercializada”. O problema principal, no entanto, é que o conteúdo audiovisual não é uma commodity. Cada filme ou programa de televisão é único. O fato incontestável é que para a indústria a criatividade é mais importante que a produção do filme, e a produção no Brasil costuma ser confundida com a produção de set e/ou com o controle financeiro. A produção de set é mais commodity do que a criatividade. E por mérito nosso já temos inúmeros profissionais habilitados a garantir uma boa produção de set. A criatividade é, portanto, o verdadeiro diferencial. E a criatividade é mais importante do que o próprio modelo de negócios.

Basta ver que um único filme bom supera completamente qualquer perspectiva racional de público (vide filmes inovadores como “Tropa de Elite 2” e o americano “Titanic”). Pois um filme bom reinventa o público e descobre o que o consultor W. Chan Kin chama de um vasto “oceano azul” de públicos inexplorados . O mesmo acontece com televisão, seja para series, animações ou realities. O que importa mesmo é inventarmos novelas como “Betty, a Feia” (que foi vendida para dezenas de países), formatos inovadores que são vendidos para centenas de países e franquias de animação que dão lucros por dezenas de anos. Inovação é tudo na indústria de conteúdos audiovisuais. E inovação não é experimentalismo, nem é oposta à conquista do público. Vale lembrar que as novelas brasileiras mais inovadoras são as que dão mais audiência. No entanto, para debater o conteúdo temos que sair do debate sobre “modelo de negócios” e chegar ao debate sobre o “modelo de criação”.

Quando falo do modelo de criação falo de como organizar a equipe criativa e como distribuir o poder dentro dela. É um debate sobre gestão de grupos criativos, muito realizado na indústria de software (Domenico di Masi é um dos autores que debate isso), mas ainda pouco executado na indústria audiovisual. A Rede Globo se firmou com uma das maiores produtoras audiovisuais do mundo por ter criado um modelo de criação que gerou uma fábrica de audiovisual criativo. Em seus primórdios esse modelo partiu de duas coisas: o modelo de negócios novos implantado por Walter Clark e um modelo de criação criado por Boni e Daniel Filho. Esse modelo é baseado numa grande valorização dos roteiristas de televisão, que ficam sob contrato e tem imenso poder criativo. Dentro da Globo o roteirista é autor, artista e produtor criativo.

Não é o que tem acontecido, por exemplo, com a produção independente de televisão brasileira. Nas produtoras independentes brasileiras os roteiristas/autores são sub-valorizados. Mesmo nas produtoras grandes, que começam a ter setores de desenvolvimento fixos, o trabalho dos roteiristas é mal renumerado e eles não têm real poder criativo sobre a série. Já vi projetos de séries onde a produtora não apresenta sequer o nome dos roteiristas e diz que o roteiro foi feito pelo “coletivo da empresa”.

O problema é que a maioria dessas produtoras nunca foram empresas da área de criação de histórias. Muitos não sabem o que faz um roteirista. São produtoras de publicidade, que sempre receberam os roteiros prontos da agência. O talento deles é para a direção de arte e fotografia. Isso “segura” para filmes de 30″, mas quando se trata de fazer 13 horas de dramaturgia o poder tem que ser passado aos roteiristas. Como a Globo já demonstrou, a única forma de uma produção de televisão ter sucesso é dar poder aos roteiristas. E para isso o dono da empresa tem que ter a sabedoria de dar a gestão do grupo criativo a quem entende disso, tal como Roberto Marinho entregou a Boni (que vinha de agência de publicidade) que, por sua vez, entregou o poder criativo aos dramaturgos (que, alias, vinham do teatro de esquerda, como Lauro Cesar Muniz e Dias Gomes). Isso é ser profissional e ser industrial. Isso está longe de acontecer na produção independente de televisão brasileira.

O fato é que os produtores e donos das empresas têm que ter a coragem e a sabedoria de dividir realmente o poder com artistas, principalmente roteiristas e diretores. Muito se fala muito no Brasil de produção independente. Chegou a hora de falar de “autor independente”. Pensando um pouco em cinema: já repararam como há poucas produtoras que contratam diretores de fora da casa e dão poder para eles? Geralmente a direção de um filme e/ou de uma série é o prêmio de consolação para “diretores da casa” que geram recursos para a empresa filmando publicidade. Isso não é ser profissional. Já é a hora do cinema e a televisão serem vistos como negócios em si mesmo.

É o conteúdo que cria os negócios, não o contrário. Audiovisual é uma indústria de protótipos, que demanda inovação permanente. E inovação permanente vem de autores. No Brasil a crença na importância da produção veio junto com a crença na produtora e com a crítica ao cinema de autor. Como se o autor fosse anti-mercado e o produtor fosse o mercado. Comercialmente falando, isso é bobagem. Basta ver o audiovisual americano. Os filmes e séries de maiores mercados são sempre de autores. Mesmo as franquias têm autores fazendo releituras dos personagens (“Batman” foi feito por vários autores, como Nolan, Burton etc). Filme sem autor são os filmes menos comerciais. No Brasil, ao contrário, o cinema de autor ficou confundido com o cinema de pouco público. Mas isso está errado. Ter autoria na obra é uma condição para alcançar o sucesso.

Importamos a ideia de produtor criativo, mas invertermos a polaridade. Nos EUA o produtor criativo é um artista que já provou seu potencial criativo em obras autorais e, por isso, ganha o poder de ser produtor e supervisionar obras de autores mais iniciantes. No Brasil, o produtor criativo tem sido o dono da produtora, alguém de negócios e/ou da área de finanças. Isso tem tirado poder criativo dos artistas e atrapalhado a criatividade em nossa indústria.

As avaliações de vários editais públicos e privados também acreditam demais na empresa produtora e distribuidora. É claro que é importante, mas o fundamental para o sucesso de um filme ou obra televisiva é um bom roteiro e o “pacote de talentos”, que inclui sempre roteirista, diretor e elenco principal e mais alguns profissionais, dependendo do filme.

Temos que urgentemente discutir o modelo de criação de nossos filmes e programas de televisão e revalorizar o papel dos autores. E temos que pensar modelos de produção que permitam que a criatividade aflore. Só assim conquistaremos mais sucesso comercial.

* Roteirista e diretor. Entre outros trabalhos assina a criação do seriado “9mm: São Paulo” (Fox) e o roteiro do longa “Broder”. É autor do livro “A Televisão na Era Digital” (Summus). Foi secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura.

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setembro 26, 2011 at 8:35 pm

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Vídeo – Debate na Câmara dos Deputados “Comissão de Ciência e Tecnologia”

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Confiram a fala de Newton Cannito na Comissão de Ciência e Tecnologia.

Parte I –

Parte II-

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setembro 26, 2011 at 7:11 pm

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Entrevista Sobre TV Digital

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Entrevista realizada por Selma Miranda no seu blog:

 

http://selmamiranda.wordpress.com/2011/04/08/newton-cannito-o-homem-da-convergencia/

 

Segue um trecho:

 

SM: A televisão digital apresenta diversos recursos, como a INTERATIVIDADE, uma das principais promessas da TV digital brasileira.  Assim sendo, que possibilidades surgem para o telejornalismo com a chegada dessa nova tecnologia?

NC: Muitas. O digital é interativo também porque facilita a captação e a transmissão ao vivo. Isso é fundamental para o jornalismo. Vai acabar a era dos exclusivos, vamos poder ter muito mais repórteres livres e eles já estão dando os grandes furos. O sonho do cineasta russo Dziga Vertov, de ter operadores de câmera (kinock) espalhados por todo o mundo está se efetivando. Isso vai tirar  o poder centralizado das redações, que terão que aprender a serem realmente verdadeiras cabeças de rede, mas aceitando que há inúmeras cabeças de redes e que cada ponto pequeno pode ser também uma cabeça de rede. Ou seja, serão múltiplas cabeças. Mas ainda terá as hegemônicas. Mas a hegemonia não se ganhará mais no controle da tecnologia, no controle da antena, no controle do equipamento, etc.. A hegemonia se conquistará em quem conseguem fidelizar mais pontos, mais repórteres, mais pessoas. Vai ser a era aonde o que importa mesmo é o repórter, não a emissora. É  a real democratização. Muito mais radical do que o que se fala hoje de democratização da produção, que ainda é baseada na idéia de abrir para o produtor independente. No futuro digital não precisará nem de produtor independente. Será a era do autor independente, do repórter que consegue ele mesmo , com seu poder pessoal, a melhor matéria. E dos agregadores de conteúdo (os cabeça de rede) que conseguem (por serem mais democráticos e menos dominadores) seduzir os melhores autores.

 

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abril 13, 2011 at 2:10 pm

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Verdades e mentiras sobre a televisão

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Trechos da Entrevista de Newton Cannito para Luciano Trigo do portal g1. Leia a matéria completa no link:

 

http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2010/04/14/812/

 

– Vou começar repetindo uma pergunta que você mesmo faz no livro: qual seria a televisão ideal?

NEWTON CANNITO: É uma televisão inovadora e que trabalhe com o especifico televisivo. A televisão não é cinema, nem internet. Sempre que ela tenta copiar outra mídia, ela não realiza todos seus potenciais. A televisão está mais para o circo, do que para a literatura. E tal como o circo a televisão trabalha com a estética do espetáculo popular interativo. A televisão também pode ser o veiculo para difusão de bons folhetins (as atuais novelas e seriados) que vão além do circo.

– Você relativiza um pouco o impacto da internet e da convergência sobre o hábito de assistir televisão. Mas as novas gerações, que já crescem habituadas a ver audiovisuais no computador, com o poder de escolher o quê e quando assistir, não podem provocar efetivamente uma crise da televisão tal como a conhecemos hoje?

CANNITO: Não. Esse papo de “nova geração” é muitas vezes enganoso. Muitos dizem que a nova geração está acostumada aos jogos eletrônicos e por isso o futuro vai ser jogos. Mas uma observação mais atenta mostra que os jovens – desde a Idade da Pedra – sempre jogaram mais que os adultos. Eu mesmo jogava muito e hoje quase nunca jogo. Os jogos eletrônicos concorrem mais com os jogos do mundo físico do que com a televisão. Pois a televisão tem outra função. Agora você falou na pergunta algo que tem mais a ver. O poder de escolher o que vai assistir. Isso vai sem dúvida aumentar muito. É a televisão de “arquivo”, em contraposição ao “fluxo”. Ou seja, vou poder assistir minhas séries favoritas na hora que eu quiser. Isso vai mudar várias coisas, sempre para melhor. Pois dará poder maior ao público de escolha real. Mas isso nunca acabará com a televisão de fluxo. A maior parte da programação ainda é (e sempre será) de fluxo. São notícias, humorísticos (ligados à realidade do dia), show, serviços, games televisivos, coisas assim. Muitas coisas ao vivo ou simulando um ao vivo. Essa estética é fundamental e é diferente do arquivo. O público vai sempre querer ligar a televisão sem saber o que quer assistir. Seria muito chato ter que sempre saber o que quero assistir. E tiraria a novidade do mundo e da minha vida. Sempre haverá o momento que eu quero assistir a televisão para ver o “que está rolando”. Por isso, acho que o principal problema da televisão hoje é esse: tudo que rola é parecido. Eu tenho uns 80 canais, zapeio, zapeio e não vejo nada inusitado. Isso é o que temos que resolver.

– A quê você atribui o enorme sucesso do Big Brother no Brasil? Os reality shows tendem a se exaurir ou vieram para ficar?

CANNITO: Vieram para ficar. O sucesso é por vários motivos. Um deles é que é um formato especificamente televisivo e já pensado para ser transmidiático. Isso é característica de sucesso. Além disso, o Big Brother responde a demandas imaginárias do momento e dialoga com a estética da cultura digital. No livro mostro como ele é um simulacro do universo do “sucesso” no Brasil, como trabalha com temas da novela (amor e ascensão social), como é um “metamelodrama”, pois é um melodrama debatido etc..

– Qual é, em linhas gerais a sua análise do fenômeno Youtube, e qual seu impacto sobre a televisão?

CANNITO: O YouTube revolucionou o conteúdo audiovisual, pois criou uma possibilidade de difusão de conteúdo amador gratuito e permitiu a criação de uma imensa videoteca. Ele foi muito mais bem sucedido que as Web TVs, pois entendeu a lógica da Web 2.0 que é: Todo poder ao usuário. Ao invés de ser um produtor, ele se “contentou” em ser uma plataforma para o usuário colocar seus próprios conteúdos, seja produção caseira, seja trechos que o usuário gravou da televisão ou cinema. Ou seja, o Youtube abriu mão de ser uma produtora para ser “apenas” um canal de distribuição. Mas conceitualmente o YouTube não concorre com a televisão. É outro tipo de conteúdo e outro tipo de uso. É uma economia de cauda longa, e a televisão nunca será cauda longa. É claro que, nesse momento especifico, os conteúdos audiovisuais na web tiraram algum público da televisão. Era uma demanda contida por acesso a conteúdos de difícil acesso. A televisão era hegemônica demais, queria ser tudo e atender sempre a todos. Isso nunca mais acontecerá. Mas os programas de televisão sempre terão mais audiência do que programas disponíveis no YouTube. Por um motivo simples: se fizer sucesso na internet vai acabar indo para a televisão. A televisão é o espaço do genérico (das altas audiências), a internet é o espaço ideal para o segmentado. E isso não é critério qualitativo. Ambas as coisas são importantes e vão conviver na Era Digital. O genérico é o que dá assunto comum ao grupo social, e isso será sempre importante.

– Experiências já estão sendo feitas com a televisão em 3D. Você acha que ela vai pegar?

CANNITO: Não. É claro que poderá ter momentos aonde vamos querer ver televisão em 3D. Mas é um investimento altíssimo para poucos momentos. É claro que se puder investir em tudo a gente investe em tudo. Mas investir em tudo é jogar dinheiro fora. É importante ter prioridades e eu não priorizaria isso. Há grandes chances de ser mais uma daquelas tecnologias que fracassam, pois interessam apenas ao público “novidadeiro” e nunca cheguem ao grande público. Ou que sejam muito caras. É claro que se baratear muito e muito ele pode ser uma tecnologia opcional. Mesmo assim será usada apenas nos momentos em que iremos assistir a programas que tem a ver com isso, um filme, um Jogo, etc… Pode ser que seja apenas para conteúdo Premium. No cotidiano da programação não tem sentido. Pois o 3D ajuda a imersão tipicamente cinematográfica. É uma tecnologia de imagem similar ao som dolby. No livro eu explico bem a diferença da imersão cinematográfica e a forma de recepção televisiva, que é mais interativa e menos imersiva.

– Quais são os impactos da pirataria sobre a TV digital, e como você acha que esse problema pode ser enfrentado?

CANNITO: A pirataria é imensamente nociva, obviamente. Ainda tem gente que pensa que é “revolucionário” pois puniria as “corporações”. Isso obviamente é um erro conceitual. Primeiro porque não podemos roubar de alguém apenas porque ele é grande. Podemos lutar para outros crescerem, mas não se luta roubando nada, se luta montando novas empresas que disputem com as corporações. Além disso, a pirataria prejudica também os autores, que são os indivíduos criativos, que deixam de ser renumerados. O problema pode ser enfrentado com ações punitivas, é claro. Mas também ações de dialogo e reformulação de modelos de negocio. Temos que entender o que move quem compra pirataria. Podemos pensar modelos que atenda eles de forma legalizada, barateando preços, diminuindo a janela e tudo mais. No caso da TV Digital e de conteúdos transmidiáticos é importante criar sistemas que calculem automaticamente a audiência em novas mídias, como internet e celular. E criar caminhos para que esse recurso vá para os autores.

– Estudos sérios sobre a televisão ainda são escassos no Brasil. Com que autores e teóricos você dialogou para escrever o livro?

CANNITO: O livro é resultado de pesquisas que faço desde a faculdade e desde a época que eu escrevia a Revista Sinopse, uma revista de audiovisual editada pelo CINUSP (cinema da USP). Em termos bibliográficos destaco livros ligados a cultura digital (Cultura da Convergência, de Jenkins) e a publicações internacionais de autores como François Jost. Alguns desses autores foi traduzido para a revista do IETV (www.ietv.org.br). Mas nem toda a reflexão veio de outros livros. É um livro feito “a quente”, sobre um tema muito debatido, mas com pouca bibliografia. Por isso usei muito de material retirado em entrevistas que fiz e/ou em seminários que organizei para o IETV.

 

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março 30, 2011 at 4:10 pm

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Newton Cannito em entrevista para a Rádio Boa Nova

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Na 21ª edição da Bienal Internacional do livro, a rádio Boa Nova entrevistou Newton, que falou sobre seu livro “A televisão na Era Digital” e outros assuntos do cenário audiovisual.

Ouça aqui

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setembro 22, 2010 at 6:15 pm

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Rádio Jovem Pan entrevista Newton Cannito

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A era digital traz novos desafios à televisão. A nova tecnologia possibilitará mais criatividade e uma aproximação com o público, que terá papel fundamental na produção de programas. Além disso, o intercâmbio com outras plataformas será uma realidade. Newton Cannito, diretor do Instituto de Estudos de Televisão e da Fábrica de Idéias Cinemáticas, propõe uma ampla discussão sobre esta nova tecnologia no livro “A Televisão na Era Digital”, que será lançado na próxima semana. Em entrevista à Jovem Pan, Newton Cannito falou sobre o livro e a TV digital.

Ouça aqui

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setembro 17, 2010 at 2:48 pm

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TV Digital e Cultura

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TV digital, educação e cultura

O debate sobre TV Digital hoje ainda fica, na grande maioria dos casos, preso a falsas questões e a antigas dicotomias analógicas.

Um exemplo: ainda há quem acredite que a televisão vai virar internet. Esse é um raciocínio tipicamente analógico, pois é divergente e conflituoso. Não tem sentido pensar que a internet vai vencer a televisão, nem o contrário. Quem vai vencer é o conteúdo que souber trabalhar de forma convergente, atuando em várias mídias, inclusive as mídias físicas como livros, performances e aulas.

Outro potencial do digital é superar a dicotomia entre entretenimento superficial e profundidade educativa. A elite intelectual sempre clamou por uma televisão educativa. No entanto a televisão – tal como o cinema – não é o espaço apropriado para tratar os conteúdos da forma densa e profunda que a educação nos pede. A internet e os livros cumprem melhor esse papel.

A televisão está mais para circo do que para a escola. A televisão trabalha com o conceito de atrações visuais numa estética que foi teorizada pelo cineasta russo Sergei Eisenstein. Essa estética do espetáculo é muito criticada, mas pode gerar obras primas em todas as mídias. Basta lembrar: O Rei da Vela, de Zé Celso; os programas de televisão tropicalistas, como “Chacrinha” e “Divino Maravilhoso”;  e os filmes de cinema de Eisenstein.. Mesmo em nossos programas com conteúdo cultural e educativo temos que lembrar que a televisão é um circo eletrônico e deve usar da estética do espetáculo.

Além disso, o conteúdo na televisão costuma ser genérico, ou seja, não se aprofundar para atingir a vários públicos. Mas isso não é necessariamente ruim. O conteúdo genérico difunde um conhecimento que não se aprofunda em nada, mas gera muito conhecimento geral em várias áreas e um conhecimento em comum para o público alvo. Isso é importante para gerar coesão social. Além disso, o conteúdo genérico é adequado ao conhecimento multidisciplinar.

A grande maioria do conteúdo televisivo de hoje é ruim. Mas nem sempre é ruim pelos motivos que a elite os acusa. Tal como as artes populares foram atacadas desde sempre, os programas de televisão são acusados de serem antiéticos, grotescos, apelativos. Temos que ficar atentos, pois as vezes essas criticas manifestam apenas preconceitos contra o “populacho”.   O conteúdo televisivo deve saber ser genérico e espetacular sem culpa.  Tal como, aliás, sempre fez  as artes populares.

Por outro lado o conteúdo televisivo brasileiro dos últimos anos tem sido pouco inovador. É hora de mudar isso e a convergência digital é uma boa oportunidade.

A televisão não tem sempre a obrigação de ser educativa e nem precisa ser educativa o tempo todo.  Por outro lado a educação é uma tendência real, que desperta interesse no público atual. Por isso, podemos fazer conteúdos educativos adequados a mídia televisiva. E pensar ações educativas transmidiáticas.

As novelas e os realitys têm grandes potenciais educativos se pensados de forma transmidiática. O projeto de internet das emissoras ainda considera a internet como um lugar onde a rede de TV exibe seus próprios vídeos e, no máximo, coloca informações básicas sobre o programa (elenco, ficha técnica, etc.). Isso é um grande erro. Uma novela contemporânea deve ser pensada tal como “Lost” foi pensado: como um universo transmidiático. Isso é diferente de fazer conteúdo extra para o produto televisivo. A internet não é conteúdo extra. É apenas outra mídia, que tem outro tipo de conteúdo. O universo deve ser pensado com um todo desde o seu inicio, separando o que é conteúdo especifico e exclusivo de cada mídia. A internet pode ser preenchida por jogos de decodificação educativos, onde os jogadores participem de verdadeiros RPGs e onde tenham que estudar para que consigam desvendar mistérios expostos na narrativa televisiva. Também é possível pensar um reality totalmente educativo. Imagine um “No Limite” onde os participantes sejam universitários e para vencer as provas tenham que tirar dúvidas com seus professores. É uma forma de aproximar jogo de educação.

Por fim, a convergência digital exige que as várias mídias e televisões conversem entre si. Ao invés das TVs públicas e educativas tentarem competir com as “comerciais” elas poderiam ter estratégias convergentes. Um exemplo: um canal público pode exibir conteúdos educativos ligados ao produto de “entretenimento” de um canal comercial. Se isso for pensado desde o início o entretenimento não será apenas “entretenimento e será também educativo”.

A principal característica do digital é a convergência. A convergência não é apenas tecnologia. É também conceitual, de empresas, e de seres humanos.  E a convergência ocorre primeiro em nosso cérebro. Em vez de ficarmos presos a falsos dilemas e antigas oposições conceituais (com a oposição entre entretenimento e educação), temos que superar preconceitos e aprender a atuar juntos.   Esse é o grande desafio da Era digital.

 

 Newton Cannito: Newton Cannito é Secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura, autor do livro A televisão na era digital, publicado pela editora Summus, e autor do blog www.atelevisaonaeradigital.wordpress.com

artigo publicado originalmente no site do sesctv:

http://www.sesctv.com.br/revista.cfm?materia_id=78

 

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junho 4, 2010 at 1:27 pm

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